A classe operária sofre

 

por Matheus Pichonelli da Carta Capital

Seria mais fácil vestir a fantasia vermelha e sair espalhando teias de aranha pela metrópole. Mas Michel, personagem de Jean-Pierre Darroussin em As Neves do Kilimanjaro, optou pela via mais tortuosa. Uma via que exige posição e coerência até quando se respira.

Fã do Homem-Aranha desde a infância, Michel é o protótipo do líder de massas: vive crente de que pode fazer história e virar herói a qualquer momento diante de qualquer injustiça. Imbuído da missão, o dirigente sindical veste o uniforme e o discurso: a defesa dos fracos e dos oprimidos, o ataque aos patrões e ao sistema de exploração, a necessidade de unir os trabalhadores, juntar forças e vencer o Capital.

As faixas estendidas na sede do sindicato, na área portuária de Marselha, na França, podem ser expressas em qualquer língua. São fáceis de serem afixadas nas paredes ou repetidas ao microfone, na frente das massas. Quero ver dar o exemplo, diriam os céticos.

De que está do lado certo Michel não tem dúvida. Até onde o diretor Robert Guédiguian permite enxergar, o personagem é daqueles que levam o discurso e a fantasia até para o chuveiro. Escalado para sortear o destino de 20 trabalhadores a serem cortados por sua empresa, após uma malsucedida negociação com os patrões, ele não hesita em coloca o próprio nome na urna. A atitude é vista com heroísmo entre os próprios colegas, que reconhecem a recusa ao favorecimento. Michel está entre os dispensados.

“Não é fácil ser casada com um herói”, diz a mulher, Marie-Claire (Ariane Ascaride), ao saber da decisão e do destino do marido.

Engana-se ela. Cortar a própria carne é exatamente o que se espera de um líder: a doação por um bem maior. No roteiro, tornar-se vítima do inimigo visível faz até parte do script. É algo previsível. E o inimigo tem rosto, endereço e vive do outro lado da barreira a opor exploradores e explorados.

Demitido, mas com a cabeça erguida, Michel vai ao encontro de uma vida tranquila com as reservas que possui, o seguro a que tem direito, o tempo de que dispõe e os bens que acumulou. Sem luxos, mas com conforto. Como gratidão, os amigos e familiares se reúnem e pagam a ele uma viagem para a Tanzânia, em companhia da mulher, para visitar o monte do Kilimanjaro. Até que um dia descobre que o inimigo está também do seu lado, justamente o lado de seu discurso. O lado que defendeu o tempo todo.

Vítima de um violento assalto, ao lado da mulher e dos cunhados, Michel vê cair ao chão tudo o que defendeu até ali: o oprimido, vítima das circunstâncias que condenou a vida toda, também sabe ser algoz, covarde e cruel. Nessa hora, ser herói é ser coerente, e não é fácil manter as velhas posições com uma arma apontada em sua direção.

Revoltado, Michel passa a ter todas as escolhas de sua vida testadas em poucos dias. Após tantos anos lutando contra os patrões, teria ele se tornado um velho de hábito pequeno burguês? Seria justo usar o peso da lei a seu favor? Seria honesto ao defender uma pena a um criminoso que caiu em tentação e fatalmente acabar com as chances de outra família se reerguer?

Ao seu redor, o que todos pedem é vingança – e a chance de se tornar um covarde e trair a causa é tentadora.

Mesmo do lado “certo”, Michel observa a transformação de todos ao tropeçar em todos os ranços da direita mais raivosa. Por que ter misericórdia a quem não tem misericórdia?  É justo pagar impostos para manter criminosos confortáveis com vida numa prisão? É possível ser humano após ser traído? As chances, afinal, são as mesmas para todos, e fazer o que é certo é só uma questão de índole, certo?

Nem sempre.

A busca pelas respostas leva à compreensão de que o mundo seria mais fácil se o inimigo tivesse um rosto mais bem definido. Se simplesmente opusesse justiceiros e injustiças, opressores e oprimidos, boas causas e más intenções. Ou se valesse a lógica do Conselheiro Aires, personagem de Machado de Assis: “A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito”.

No filme de Guédiguian, todos, de alguma forma, têm suas próprias razões – e de perto, insiste o diretor, vítimas e algozes são mais parecidos do que se imagina.

O filme talvez peque pelo excesso de didatismo e deixar clara a missão heroica do diretor ao repetir Victor Hugo em seu poema “Os Pobres”. Guédiguia não mede palavras e diálogos para mostrar que a solidariedade é um imperativo, mesmo quando tudo parece fora do lugar. Ainda assim, consegue manter a coerência exigida dos próprios personagens.

Durante parte do longa, Michel é retratado como o avô que cuida dos netos, promove brincadeiras, cuida do almoço, leva e busca as crianças na escola. Um homem justo e leal, portanto. Como todos ao seu redor, sabe que nunca fez mal a ninguém; combateu o bom combate, e durante a vida lutou por um mundo mais justo, mais igualitário, mais fraterno – os pilares das bandeiras de seu país, expostos já na sede do sindicato.

Mas outra sequência escancara: o crime não nos impede de sermos bons pais, bons filhos, bons amigos, bons vizinhos nem bons profissionais.

De quem é a culpa, então?, perguntam-se diretor, personagens, atores e espectadores. A resposta parece complexa demais para caber num simples discurso. No fim das contas, tudo parece se resumir na caixa usada por Michel ao escolher quem vai ou não para a rua (ele, inclusive). É como se expressasse as filas de futuros indigentes de um mesmo sistema, injusto e arbitrário. Todos são filhos da sorte e do acaso. O resto são apenas escolhas possíveis – inclusive a coerência.

 

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