Eita, poesia se escreve com febre!

Por Wilq Vicente.

O cinema brasileiro é careta e precisa de atitude”. Eita, poesia se escreve com febre! Ao menos na cidade de Recife, onde outrora já foi considerada a quarta pior cidade do mundo. Alguma coisa mudou?. Entre os becos e vielas, na praia, no mangue, ouve-se um grito, um gemido ecoando com força e vivacidade, cheio de anarquismo e de delírios pulsantes. Um poeta e suas angústias viscerais. Eita, poesia se escreve com febre!

Febre do Rato é o mais recente filme de Cláudio Assis, um bicho cabra da peste que veste e se reveste do imaginário representado pelos personagens de seus filmes. “A sociedade está muito chata”, dispara Assis. Um realizador de títulos como Amarelo Manga e Baixio da Bestas e que amadurece com o seu certeiro e terceiro trabalho. Assis não mede palavras, dispara contra tudo e todos, Globo Filmes, Hector Babenco e Walter Salles etc.

O filme é uma apologia a vida desregrada, dos padrões cristãos. Faz referencias implícitas ao Cinema Marginal da década de 70 e evoca o mundo dionisíaco, de Celso Martinez Corrêa. Sexo, álcool, drogas e poesia, poesia em demasiado “como um tiro certeiro” em um plano continuo, uma metralhadora a disparar e disparar. Sentimos a pulsação da vida, do prazer e do amor. Energias sendo parafraseadas ali e acolá, pelo poeta Zizo. O filme Febre do Rato transgride, não sabemos? Mas ele segue na contracorrente do cinema brasileiro, isso eu não tenho dúvidas.

A fotografia em preto e branco raramente explorada no cinema brasileiro é belíssima. O elenco de atores impecável, sem pudor. Uma narrativa que vai fluindo através da beleza dos poemas que igualam o popular ao erudito. Uma crônica libertária, narrando o cotidiano das periferias brasileiras. O filme mostra assim a riqueza e a vida pulsante que percorre diariamente os becos e as vielas dessas periferias. Sem qualquer vergonha, traço marcante de Assis.

O filme te chama a pensar, te sacode, pede que você se indigne. Pede que você se levante e grite, cante e recite. O satélite é a volta do mundo, abismo de coisas medonhas, afirma Zizo em off na abertura do filme em pleno Rio Capibaribe. Quem foi que disse que poesia não embala, quem foi que disse que poesia não embriaga anuncia o poeta. Somos anarquistas sim, por que até a anarquia precisa de tradição em pleno centro do Recife em dia de parada militar. O poeta é uma flecha.

Febre do Rato é também o nome do fanzine produzido e distribuído entre os barracos erguidos entre mangues. Esse é o cinema brasileiro que entre becos e vielas tenta se erguer, esse é o cinema feito por Cláudio Assis e seus colaboradores com muita febre. E com muita febre não aceita imposições, sem frescuras, sem papas na língua. É preciso errar, afirma Zizo. Talvez resida aí o foco do cinema brasileiro. Eita, cinema se faz com febre!

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